Category — Impactos Ambientais
Mortes e doenças relacionadas à Produção de Etanol no Brasil
Por Doutora Sônia Corina Hess
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar – UNICA anunciou que, na Região Centro-Sul, onde se concentram 86% da produção nacional, na safra 2008/2009 a cana moída deverá atingir 498,1 milhões de toneladas, um crescimento de 16% em relação à safra 2007/08, quando foram moídas 431,2 milhões de toneladas de cana. A partir desta safra, 32 novas usinas entrarão em operação na região centro-sul, das quais treze em São Paulo, dez em Goiás, quatro em Minas Gerais, quatro em Mato Grosso do Sul e uma no Paraná. Na última safra, 47% da colheita no Estado de São Paulo foi mecanizada, contra 34% registrados na safra 2006/07 (UNICA, 2008). Segundo Ribeiro (2008), o corte da cana é mecanizado em 25% da produção brasileira.
Durante o período de safra, os canaviais que são colhidos manualmente sofrem a queima pré-corte, para facilitar o trabalho dos cortadores, evitar a sua exposição a animais peçonhentos e, também, aumentar o teor de açúcar da cana, decorrente da evaporação da água (GODOI et al, 2004).
Segundo Alves (2006), “a produtividade média do trabalho no corte de cana, que em 1950 era de 3 toneladas de cana cortadas por dia/homem, no final da década de 1990 e início da presente década atingiu 12 toneladas de cana por dia. Ao cortar esta quantidade de cana, um trabalhador, em média, realiza as seguintes atividades em um dia: caminha 8.800 metros; despende 133.332 golpes de podão; carrega 12 toneladas de cana em montes de 15 kg; faz 800 trajetos e 800 flexões, levando 15 kg nos braços por uma distância de 1,5 a 3 metros; faz aproximadamente 36.630 flexões e entorses torácicos para golpear a cana; perde, em média, 8 litros de água por dia, por realizar toda esta atividade sob sol forte, sob os efeitos da poeira, da fuligem expelida pela cana queimada e trajando uma indumentária que o protege da cana, mas aumenta sua temperatura corporal”. Segundo apontam este e outros autores (SILVA, 2005; RIBEIRO, 2008), o excesso de trabalho e as condições em que este ocorre explicariam as mortes súbitas vitimaram, pelo menos, 19 trabalhadores rurais cortadores de cana em São Paulo desde 2004. Ainda, segundo Silva (2008), as condições de trabalho dos cortadores de cana têm encurtado o seu ciclo de vida útil na atividade, que passou a ser inferior ao do período da escravidão, que era de 10 a 12 anos, até 1850.
Muitos trabalhos científicos têm destacado que, em queimadas de biomassa, a combustão incompleta resulta na formação de substâncias potencialmente tóxicas, tais como monóxido de carbono, amônia e metano, entre outros, sendo que o material fino, contendo partículas menores ou iguais a 10 m (PM10) (partículas inaláveis), é o poluente que apresenta maior toxicidade e que tem sido mais estudado. Ele é constituído em seu maior percentual (94%) por partículas finas e ultrafinas, ou seja, partículas que atingem as porções mais profundas do sistema respiratório, transpõem a barreira epitelial, atingem o interstício pulmonar e são responsáveis pelo desencadeamento de doenças graves (ARBEX et al, 2004; GODOI et al, 2004).
Um estudo realizado em Piracicaba/SP (CANÇADO et al, 2006a) comprovou que a queima da cana-de-açúcar nos canaviais da região ocasionou o aumento da concentração de PM10 na atmosfera, e que este repercutiu no em um maior número de atendimentos de crianças e idosos em hospitais, para tratamento de problemas respiratórios. Em Araraquara/SP, pesquisadores revelaram que a poluição atmosférica gerada pela queima da cana-de-açúcar levou a um significativo aumento dos atendimentos hospitalares para tratamento de asma (ARBEX et al, 2007).
É importante destacar os dados apresentados por Cançado e colaboradores (2006b) entre outros pesquisadores brasileiros (CENDON et al, 2006; MARTINS et al, 2006), segundo os quais “estudos experimentais e observacionais têm apresentado evidências consistentes sobre os efeitos da poluição do ar, especialmente do material particulado fino, na morbidade e mortalidade por doenças cardiovasculares (cardíacas, arteriais e cerebrovasculares). Tanto efeitos agudos (aumento de internações e de mortes por arritmia, doença isquêmica do miocárdio e cerebral), como crônicos, por exposição em longo prazo (aumento de mortalidade por doenças cerebrovasculares e cardíaca) têm sido relatados. O aumento da poluição do ar tem sido associado ao aumento da viscosidade sangüínea, de marcadores inflamatórios e da progressão da arteriosclerose, a alterações da coagulação, à redução da variabilidade da freqüência cardíaca (indicador de risco para arritmia e morte súbita), à vasoconstricção e ao aumento da pressão arterial, todos fatores de risco para doenças cardiovasculares. Ainda, um abrangente estudo encontrou risco aumentado de mortalidade relacionada à poluição do ar que variou de 8% a 18%, para diversos tipos de doenças cardíacas”. Portanto, tais dados levam a inferir-se que a exposição dos cortadores a materiais particulados gerados durante a queima da cana, é um fator importante a ser considerado como possível causa da morte súbita de alguns destes trabalhadores.
Uma equipe de pesquisadores do Instituto do Coração (INCOR), da Universidade de São Paulo, sob a coordenação do Dr. Ubiratan de Paula Santos, concluiu, na primeira semana de maio de 2008, levantamentos de parâmetros relativos às condições de trabalho e saúde de um grupo de cortadores de cana, que deverá resultar em novas e importantes conclusões sobre os efeitos dos poluentes atmosféricos gerados pela queima da cana-de-açúcar, na saúde destes trabalhadores.
Em 1991, o pesquisador britânico Phoolchund ressaltou que “os trabalhadores das plantações de cana-de-açúcar apresentam elevados níveis de acidentes ocupacionais e estão expostos à alta toxicidade dos pesticidas. Eles também podem apresentar um risco elevado de adoecerem por câncer de pulmão (mesotelioma), e isto pode estar relacionado à prática da queima da palha, na época da colheita da cana.” Estudos recentes têm comprovado as suspeitas daquele pesquisador.
Dentre as substâncias presentes nos materiais particulados finos liberados durante a queima de biomassa (vegetação), os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) são os mais danosos à saúde, apresentando atividades mutagênicas, carcinogênicas e como desreguladores do sistema endócrino (ZAMPERLINI et al, 1997; GODOI et al, 2004). Em um estudo realizado em Araraquara/SP, durante a época da colheita da cana, foi encontrada uma concentração do HPA benzo-a-pireno (carcinogênico), maior do que em Londres e em outras grandes cidades, e foi sugerido que tal substância provinha de queimadas em canaviais existentes na região. A mesma fonte de poluição atmosférica foi apontada como responsável pela elevada concentração das partículas totais em suspensão encontradas no estudo, que atingiram a média de 103 microgramas por metro cúbico, valor superior ao limite de 80 microgramas por metro cúbico, estabelecido pela resolução 03 de 1990, do Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA (GODOI et al, 2004).
Em um estudo divulgado em 2006 (BOSSO et al, 2006) foi constatado que cortadores de cana saudáveis e não-fumantes que trabalhavam em canaviais do Estado de São Paulo, na época da colheita, apresentavam na urina substâncias que indicavam que estes trabalhadores haviam sido intensamente expostos a HPAs genotóxicos e mutagênicos, e que fora do período de colheita, estes teores eram bem menores. Segundo os autores, o estudo comprovou que as condições de trabalho expõem os cortadores de cana a poluentes que levam ao risco potencial de adoecimento, principalmente, por problemas respiratórios e câncer de pulmão.
Diante do exposto, conclui-se que os estudos científicos já divulgados comprovam que a poluição atmosférica originada pela prática da queima da cana-de-açúcar, como parte do processo produtivo do etanol, no Brasil, repercute em riscos severos à saúde dos trabalhadores e da população em geral, devendo ser abolida imediatamente.
Também é urgente a reformulação da legislação trabalhista que regula a contratação dos cortadores de cana, para evitar-se que estes continuem a trabalhar em condições de esforço físico muito superiores àquelas que um ser humano pode suportar.
REFERÊNCIAS
ALVES, F. Por que morrem os cortadores de cana? Saúde e Sociedade. V. 15, p. 90-98, 2006.
ARBEX, M. A.; CANÇADO, J. E. D.; PEREIRA, L. A. A.; BRAGA, A. L. F.; SALDIVA, P. H. N. Queima de biomassa e efeitos sobre a saúde. Jornal Brasileiro de Pneumologia. V. 30, p 158-175, 2004.
ARBEX, M. A.; MARTINS, L. C.; OLIVEIRA, R. C.; PEREIRA, L. A. A.; ARBEX, F. F.; CANÇADO, J. E. D.; SALDIVA, P. H. N.; BRAGA, A. L. F. Air pollution from biomass burning and asthma hospital admissions in a sugar cane plantation area in Brazil. Journal of Epidemiology and Community Health. V. 61, p. 395-400, 2007.
BOSSO, R. M. V.; AMORIM, L. M. F.; ANDRADE, S. J.; ROSSINI, A.; MARCHI, M. R. R.; LEON, A. P.; CARARETO, C. M. A.; CONFORTI-FROES, N. D. T. Effects of genetic polymorphisms CYP1A1, GSTM1, GSTT1 and GSTP1 on urinary 1-hydroxypyrene levels in sugarcane workers. Science of the Total Environment. V. 370, p. 382-390, 2006.
CANÇADO, J. E. D.; BRAGA, A. L. F. ; PEREIRA, L. A. A
novembro 20, 2010 Comentários desativados
O valor da biodiversidade
Fonte: revista Página 22 núm. 47 pág. 7
Durante a COP 10, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente apresentou uma forma de calcular o valor dos serviços prestados pela natureza, também conhecidos como serviços ecossistêmicos.
O estudo indica que os insetos sozinhos prestam um serviço avaliado em U$210 bilhões por ano. O ambiente marinho com corais proporciona, por exemplo, U$172 bilhões anuais. O levantamento também informa que cerca de 30 milhões de pessoas dependem diretamente de recursos vindos dos corais para viver.
Os danos ao capital natural, isto é aos recursos naturais, incluindo florestas, mangues e oceanos chegam a U$4,5 bilhões por ano. O relatório “A economia dos ecossistemas e da biodiversidade” (sigla Teeb, em inglês) revela que a perda de biodiversidade custa cerca de U$5 trilhões anuais.
Os ecossistemas representam entre 47% e 89% do chamado “PIB dos pobres”, de onde as populações agrícolas e ribeirinhas retiram seus alimentos e matéria-prima para ter condições de sobrevivência.
O que podemos entender deste texto:
- Tudo que temos de conforto e tecnologia vem da transformação das matérias primas da natureza através de processos. Nestes processos ocorrem impactos ambientais que prejudicam a biodiversidade, como o desmatamento, poluição da água e do solo, que acarretam na perda dos habitats naturais.
- Principalmente a população mais pobre depende dos recursos naturais diretos para sobreviver, como a pesca, e plantações de subsistência, assim, em geral, são os mais afetados pela perda da biodiversidade.
- Resumindo, é preciso fazer o uso sustentável das paisagens, ou seja, ter as matas ciliares preservadas protegendo os rios, ter as reservas legais e fragmentos florestais conectados para que se formem os corredores de biodiversidade. Usar técnicas de manejo adequadas nas plantações e na pecuária, com curvas de nível e planejamento para prevenção a erosão. As indústrias devem ter sistemas de tratamento de esgotos eficientes. As cidades devem possuir planos diretores que protejam áreas frágeis. E deve-se incentivar a proteção de áreas naturais, através da criação de unidades de conservação como as RPPNs – Reservas Particulares do Patrimônio Natural.
novembro 18, 2010 No Comments
“The Story of Stuff”
O Projeto “The Story of Stuff” foi criado por Annie Leonard com o objetivo de ampliar a discussão sobre diversos aspectos ambientais, sociais e econômicos. Segue uma série de vídeos produzidos pelo projeto:
Você pode saber mais e assistir outros vídeos no site do projeto: http://www.storyofstuff.com/
outubro 9, 2010 No Comments
Saneamento Básico na Amazônia
Ter Saneamento Básico é um direito de qualquer cidadão, e mesmo em regiões que não apresentam problemas com a escassez, é necessário garantir que a água oferecida seja tratada e tenha boa qualidade. No Amazonas algumas famílias, apesar de morarem ao lado dos rios, abastecem-se com água da chuva.
Na Amazônia sobra água e falta saneamento
Por Mario Osava, da IPS
Altamira, Brasil, 16/8/2010 – Parece um contrassenso adotar na úmida Amazônia uma solução desenvolvida para as secas do Nordeste brasileiro. Mas as águas pluviais, captadas no teto e armazenadas em cisternas, estão melhorando a saúde e a vida em comunidades rurais da região. O governo do Estado do Amazonas promove, desde 2006, o Programa de Melhorias Sanitárias e Armazenagem de Água da Chuva (Pró-Chuva), que já beneficiou dez mil famílias em 77 comunidades, com telhados, cisternas e sistema de esgoto.
Sua segunda fase, iniciada em maio, se estenderá a outros povoados e distribuirá equipamentos de saneamento. Na Amazônia há excesso de água, que, em geral, não é potável e muitas vezes está contaminada pelo dejeto dos próprios moradores, espalhando diarreia, hepatite e outras doenças. E nem sempre a água é de fácil acesso. Aos 69 anos, hipertenso e diabético, com 14 filhos espalhados pela Amazônia, Osvaldo Pantoja Ferreira já quase não tem forças para carregar a lata com 20 litros de água do rio até sua casa, onde vive com a mulher.
São cerca de cem metros de subida íngreme e escorregadia. “No verão fica mais difícil”, por que o rio se afasta, disse. Caracol, como todos o chamam, precisou apelar para a criatividade. Há quatro anos instalou seu próprio sistema de recolher água da chuva, com canos à beira do telhado que a leva a um depósito de mil litros em um canto da casa e a outro menor, do outro lado. Mas continua carregando água do rio, por achar que é mais potável.
Onde vive, no Estado do Pará, a leste do Estado do Amazonas, não há nenhum plano como o Pró-Chuva, que se inspirou no Programa Um Milhão de Cisternas que existe no semiárido nordestino desde 2003, graças a uma rede de 700 organizações sociais. Com uma forte participação comunitária, esse programa já instalou quase 300 mil unidades. Antes, Caracol tentou a tecnologia industrial, mas as duas bombas que comprou não aguentaram o esforço. “O motor era muito fraco, perdi dinheiro”, lamentou. Depois, seu gerador de eletricidade quebrou, inutilizando também seu televisor, “que com antena parabólica pegava bem”.
A Volta Grande do Rio Xingu, o trecho em curva de cem quilômetros em cuja margem construiu sua casa de madeira, terá a maior parte de suas águas desviada para alimentar a hidrelétrica de Belo Monte, que enfrenta a insistente resistência de indígenas, movimentos sociais e ambientalistas. A conclusão do projeto, prevista para 2015, deixará Volta Grande em um eterno verão. Na Amazônia, as águas determinam os ciclos de vida e do ano. O inverno, de dezembro a abril, é quando mais chove, quase todos os dias. No verão, o Rio Xingu baixa muito e deixa descobertas suas praias, cascatas e milhares de ilhotas de pedras.
Antes que o rio se afaste definitivamente, Caracol, exímio caçador que acertava o olho de jaguares e ariranhas (nutria gigante) para garantir bom preço pelas peles intactas, espera ser ligado ao sistema elétrico nacional e recuperar seu televisor, a geladeira e a possibilidade de bombear água do Xingu. “A luz fica a 15 quilômetros e deve chegar nos próximos meses”, disse Caracol, diante da expansão do programa Luz Para Todos, com que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva levou eletricidade a 2,5 milhões de famílias rurais.
Com geradores próprios, os indígenas dos grupos Arara e Juruna, também ribeirinhos da Volta Grande, bombeiam água para suas aldeias do Xingu, um dos principais e mais longos afluentes da vertente meridional da bacia amazônica. Entretanto, temem que a construção da represa e dos canais para desvio parcial do rio suje suas águas.
“Não sabemos como ficará a qualidade da água que consumimos”, disse Arlete Juruna, filha do líder da reserva indígena Paquiçamba, onde vivem 92 pessoas. Ela também teme redução dos peixes, principal alimento dos indígenas, junto com o tracajá, espécie de quelônio abundante na bacia. “Aqui não tem lençol freático, apenas poucas rochas, não se encontra água nem com perfurações de 200 metros”, disse José Carlos Arara, que lidera o grupo Arara da Volta Grande, de 150 membros, e se opõe decididamente à hidrelétrica.
Monitorar a qualidade da água será indispensável, porque cimento e produtos químicos usados na construção poderão contaminar os peixes, matá-los ou provocar intoxicações em seus consumidores, acrescentou José Carlos. Muitas espécies de peixes se alimentam no lodo onde se depositam os sedimentos, explicou. Impacto oposto sofrerá a população mais pobre de Altamira, capital da bacia do Xingu, com cerca de cem mil habitantes. Uma represa do complexo hidrelétrico fará subir as águas até a cidade, que fica 40 quilômetros acima, inundando bairros ribeirinhos de três igarapés que desembocam no rio.
Cristiana Rodrigues de Matos, de 29 anos, sabe que a água cobrirá a casa onde vive, na margem do Igarapé Altamira, que já esteve com metade submersa em abril de 2009, quando chuvas intensas romperam os diques construídos por fazendeiros ao longo do riacho, desalojando 30 mil pessoas. Vivia em uma rua mais acima e mudou-se há quatro meses, conhecendo os riscos. É que, devido à inundação do ano passado, baixaram os alugueis das casas ameaçadas, disse Cristiana, que trabalha como faxineira diarista e tem três filhos, incluindo um bebê de um ano, e seu marido é pedreiro.
O estudo de impacto ambiental de Belo Monte estabeleceu que 4.747 casas e imóveis comerciais serão inundados e 16.420 pessoas desalojadas nesses bairros de Altamira, que carecem de saneamento e que, na maioria, lançam o esgoto nos rios e consomem águas de poços superficiais e fáceis de serem contaminados. Os desalojados, cuja quantidade será o dobro das previsões, segundo os opositores ao projeto, receberão indenizações e serão reassentados em bairros altos, com saneamento e casas saudáveis, asseguraram autoridades responsáveis pela hidrelétrica.
“Em Tucuruí, as promessas não foram cumpridas”, recordou Vanusa Soares, referindo-se à hidrelétrica construída na década de 80 também no Pará. Ela elevou sua casa sobre palafitas de quase um metro, tentando evitar outra inundação como a do ano passado. Mas sua rua toda, bem como o bairro de casas de madeira, não sobreviverá à cheia das águas represadas. Envolverde/IPS
Fonte: (IPS/Envolverde)
agosto 17, 2010 No Comments
Floresta preservada tem limites de resistência a seca
Artigo publicado na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos demonstra que até as florestas preservadas são afetadas pelos períodos de seca.
Manaus - Um artigo publicado nesta segunda-feira na revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (PNAS) comprova que as florestas preservadas são mais resistentes à seca do que áreas já degradadas, mas demonstra também que existem limites para esta resistência. O estudo oferece uma explicação sobre as divergências entre resultados de campo e dados obtidos por sensoreamento remoto sobre a absorção de carbono na Floresta Amazônia em períodos de estiagem.
Cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), da Universidade da Flórida (UF) e do Woods Hole Research Center (EUA) combinaram dados de sensoreamento remoto, com análises de campo e registros meteorológicos. Eles utilizaram um novo índice de vegetação (EVI), obtido por satélites, que demonstrou ser mais coerente com o análises de campo, feitas na Floresta Nacional do Tapajós.
Fonte: O Eco
Leia a reportagem completa aqui, ou veja o artigo (em inglês) aqui.
agosto 10, 2010 No Comments
Perda de biodiversidade não foi reduzida conforme era esperado
A perda de biodiversidade é um dos problemas ambientais recorrentes no Brasil, atinge os ecossistemas de maneira muito forte, impedindo o correto funcionamento de seus ciclos naturais, e, além da retirada de diversas espécies, afeta diversas outras de maneira negativa, alterando o equilíbrio natural.
Aumenta a perda de biodiversidade no planeta
Por Soledad Ghione
Os governos não conseguiram cumprir sua promessa de chegar a 2010 com uma redução significativa da perda de diversidade biológica. Isso é o que acaba de reconhecer o Centro de Monitoramento para a Conservação Mundial, ligado às Nações Unidas. A notícia não causou nenhum escândalo. Pelo contrário, passou desapercebida. Os resultados são conclusivos em demonstrar que a biodiversidade declinou nas últimas quatro décadas. Essa diminuição pode ser observada em distintos grupos animais, como mamíferos ou aves, e na extensão de bosques, manguezais e arrecifes de corais.
A medida que a atenção se concentra cada vez mais nos temas ambientais globais, como a mudança climática, esquecem-se problemas locais como a alarmante perda de biodiversidade. Os governos não conseguiram cumprir sua promessa de chegar a 2010 com uma redução significativa da perda de diversidade biológica. Isso é o que acaba de reconhecer o Centro de Monitoramento para a Conservação Mundial, ligado às Nações Unidas. A notícia não causou nenhum escândalo. Pelo contrário, passou desapercebida.
Os países signatários do Convênio sobre a Diversidade Biológica acordaram em 2002 que deveriam obter uma significativa redução no ritmo da perda de biodiversidade para 2010, Ano Internacional da Diversidade Biológica. A recente avaliação dessa meta, encabeçada por Stuart H. M, Butchart, do Centro de Monitoramento para a Conservação Mundial do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), baseou-se em uma série de indicadores, tais como a apropriação de recursos naturais, o número de espécies ameaçadas, a cobertura de áreas protegidas, a extensão de bosques tropicais e manguezais e o estado dos arrecifes de coral. O período avaliado foi amplo: de 1970 a 2006.
Os resultados são conclusivos em demonstrar que a biodiversidade declinou nas últimas quatro décadas. Essa diminuição pode ser observada em distintos grupos animais, como mamíferos ou aves. Reduziu-se também a extensão dos bosques e manguezais e se deterioraram as condições marinhas, por exemplo, nas zonas com arrecifes de coral. As tendências agregadas dos indicadores de estado também pioraram. Em nenhum caso, se identificaram reduções dos ritmos de perdas.
A informação parcial disponível também aponta que os ambientes naturais estão se subdividindo e se fragmentando, com o que sua qualidade de reservatório de fauna e flora se deteriora. Um exemplo disso é o caso da Mata Atlântica brasileira que, no passado, foi o segundo bosque mais extenso da América do Sul e do qual se conservam aproximadamente 10%, numa área fragmentada em parcelas diminutas (80% dos remanescentes têm uma extensão inferior a 0,5 quilômetro quadrado).
O estudo mostra também o agravamento de outros processos, como um maior consumo dos bens que os ecossistemas produzem ou a invasão de espécies exóticas que substituem as nativas. Em nenhum caso se identificaram reduções nas pressões sobre os ecossistemas.
Essa avaliação não desconhece alguns avanços e tendências positivas, como o aumento na cobertura das áreas protegidas, a inclusão sob proteção de novas áreas chave para a biodiversidade ou o aumento da superfície de bosques manejados de forma sustentável (1,6 milhões de quilômetros quadrados). No entanto, o balanço final indica que, em escala global, é altamente improvável que se cumpram os objetivos de conservação fixados para 2010. Os esforços realizados para conservar a biodiversidade têm sido claramente inadequados, com uma defasagem importante entre as crescentes pressões humanas e uma série de respostas lentas e insuficientes.
Estes resultados são consistentes com a avaliação preliminar da situação ambiental sulamericana, divulgada recentemente pelo Centro Latinoamericano de Ecologia Social (CLAES), onde se alerta que o resultado final entre as pressões e os usos da natureza e as medidas de conservação é um contínuo aumento da deterioração ecológica.
Essa grave situação está passando desapercebida enquanto a discussão latinoamericana sobre temas ambientais está cada vez mais absorvida pelos temas da mudança climática global. É necessário alertar sobre estas tendências e redobrar os esforços para que os governos e as sociedades promovam medidas mais efetivas de conservação, incluindo realmente essa dimensão nas estratégias de desenvolvimento, e garantindo o financiamento e respaldo necessários para cumprir com os compromissos assumidos anos atrás.
*Soledad Ghione é pesquiadora do CLAES (Centro Latino Americano Ecología Social) – http://www.ecologiayconservacion.com
Tradução: Katarina Peixoto
(Envolverde/Carta Maior)
agosto 6, 2010 No Comments
A escassez de água potável
Uma de nossas necessidades mais básicas, a água potável, já é escassa em muitos países, e até mesmo o Brasil, com suas grandes reservas pode ter problemas futuros.
| Está cada vez mais difícil achar água potável
Por Vinod Thomas e Ronald S. Parker* |
A tarefa de fornecer água de boa qualidade onde ela é necessária está se tornando cada vez mais difícil em todo o mundo. Nas últimas décadas, os países têm feito investimentos em infraestrutura para aliviar a escassez, mas até agora, na maioria dos casos, a resposta a essa questão deixou de considerar o problema suscitado pela deterioração que os recursos hídricos vêm sofrendo. Para enfrentar de forma efetiva o problema da crescente crise da água será preciso vincular o seu uso à atenção ao meio ambiente.
Em muitos lugares, mesmo onde a água ainda é abundante, a destruição ambiental tornou caro demais o seu uso. Em outros que desfrutam um bom suprimento de água, ela é usada de maneira imprópria. As prioridades podem ficar de tal modo viciadas que, embora as cidades continuem desesperadas à procura de água, agricultores estão irrigando árvores frutíferas ou plantações de algodão no deserto. Ainda menos aceitável é que a água potável esteja sendo usada para manter jardins e campos de golfe, enquanto os pobres urbanos são forçados a pagar caro por ela, a qual compram em baldes.
Por causa disso, cerca de 700 milhões de pessoas em mais de 40 países são afetadas pela escassez. A intromissão humana nos ambientes hídricos é também um problema crescente. Até 2030 a Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que 75% da população mundial estará vivendo em áreas costeiras, pondo em risco as terras úmidas que ajudam a limpar o ambiente aquático, além de expor centenas de milhões de pessoas aos riscos relacionados com a água associados às mudanças climáticas.
O Banco Mundial é o maior financiador oficial de investimentos em água nos países em desenvolvimento. Os compromissos de empréstimo na última década somaram por volta de US$ 55 bilhões, com a China e a Índia no topo da lista de mutuários, seguidas pelo Brasil e pela Indonésia. Os projetos hídricos, cobrindo da irrigação e da hidroenergia à gestão de mananciais e vias aquáticas interiores, mostraram nos últimos anos maior sucesso do que outros setores na realização de seus objetivos.
Perdura, no entanto, o desafio de atender às atuais necessidades de água e implantar, ao mesmo tempo, estratégias inovadoras para tomar em conta as futuras necessidades. As áreas de ênfase caem em cinco campos principais ao longo do eixo do desenvolvimento aquático e da gestão ambiental.
Primeiro, o grupo que mais sofre a escassez de água consiste de 45 países, dos quais 35 são da África, que tem pouca. É necessário que a sustentabilidade hídrica se torne central nos seus planos de desenvolvimento, com medidas dimensionadas para atender às suas necessidades urgentes. Mesmo países ricos em água, como o Brasil ou a Tailândia, podem vir a enfrentar deficiência, ao caírem os níveis em represas e de fontes naturais.
Segundo, os lençóis aquáticos subterrâneos estão cada vez mais ameaçados por exploração excessiva, fluxos ambientais inadequados e contaminação. O esgotamento mais grave de águas subterrâneas ocorre no Oriente Médio, no norte da África e no sul da Ásia. Os esforços necessários abrangem monitoramento da qualidade da água, melhoramento dos aterros sanitários e redução da infiltração de águas superficiais contaminadas nos lençóis freáticos.
Terceiro, a restauração de ambientes degradados pode ter grandes impactos. Um projeto de proteção de terras úmidas costeiras no Vietnã, por exemplo, ajudou a reduzir a área de erosão costeira em nada menos que 40%.
Quarto, as Nações Unidas estimam que 1,8 bilhão de pessoas ainda não terá acesso ao saneamento básico em 2015. Será preciso colocar mais ênfase não somente em soluções de baixo custo no saneamento básico, mas também em ligações domiciliares aos sistemas sanitários. Entre os países em desenvolvimento, registrou-se o maior progresso na Ásia oriental.
Quinto, os investimentos em abastecimento de água precisam ser combinados com a gestão da demanda. A agricultura é a maior usuária na maioria das situações, nas quais tecnologias que melhoram a eficiência não são suficientes para melhorar o uso da água. Uma recuperação de custos maior em projetos hídricos seria útil. Estabelecer cotas e forçar o seu uso no consumo de água, um enfoque relativamente recente, merece cuidadosa avaliação.
Mesmo quando são reconhecidas, tem sido difícil converter tais prioridades em ação. Quando os atores-chave se sentam à mesa para negociar a distribuição de água, o meio ambiente fica esquecido. Raramente existe apoio à recuperação de um aquífero em declínio se ainda se pode extrair água dele, à restauração de faixas úmidas protetoras ou à manutenção de um fluxo suficiente num rio, para que a fauna silvestre possa sobreviver e a intrusão salina, ser prevenida.
O apoio político à reforma é muitas vezes dificultado por graves lacunas na compreensão da situação hídrica de um país. Melhores dados, monitoramento sistemático e divulgação dos achados são essenciais para a mobilização de recursos e a ação. O compartilhamento de conhecimentos apoia, assim, os desembolsos financeiros e possibilita melhores resultados no terreno.
Uma maneira de abrir uma janela de oportunidade seria apoiar processos de monitoração que mandam informações relevantes aos interessados públicos e privados. O exemplo do Brasil mostra que, tornando dados de água disponíveis para o público na internet, isso ajuda a aumentar a preocupação dos interessados, o que também ajuda a mobilizar a vontade política necessária para confrontar problemas de águas arraigados.
*Respectivamente, diretor-geral e consultor no grupo independente de avaliação do banco mundial (Washington D.C.)
** Artigo pblicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo
(Envolverde/O autor)
julho 19, 2010 3 Comments
Projeto de Reforma do Código Florestal preocupa ambientalistas
A reforma do código florestal preocupa pela redução das áreas protegidas por lei, e também pela possibilidade de anistiar áreas que foram desmatadas ilegalmente.
| Reforma do Código Florestal antecipa mais catástrofes para o Brasil
Por Fabiana Frayssinet, da IPS |
Rio de Janeiro, 25/6/2010 – Enquanto as autoridades contam os mortos e o prejuízo econômico pelas chuvas no Nordeste, um projeto em discussão no Congresso Nacional para modificar o Código Florestal pode potencializar os eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes. A proposta, cuja votação em uma comissão especial da Câmara está prevista para o dia 28, foi apresentada pelo deputado Aldo Rebelo do Partido Comunista do Brasil.
Diante do avanço dessa iniciativa, 13 organizações ambientais manifestam sua preocupação em uma carta aberta dirigida aos candidatos à presidência. “É um retrocesso histórico” em relação ao código de 1965 ainda em vigor, alertou em entrevista à IPS Rafael Cruz, da organização ambientalista Greenpeace. Os ativistas alertam sobre os possíveis prejuízos de declarar a anistia, como propõe a iniciativa, para o desmatamento ilegal em mais de 40 milhões de hectares de savanas e florestas da Amazônia, verificado após 1996.
Uma anistia que, alertam, corresponde a 14,6 bilhões de toneladas de CO² emitidas ilegalmente. Rebelo argumenta que é preciso reformar o Código Florestal porque prejudica a agricultura e com isso a provisão de alimentos para os mais necessitados. O projeto de reforma também propõe que cada Estado possa, a seu critério, reduzir até 50% os limites definidos pela legislação federal nas áreas de preservação permanente (APP) que correspondem às florestas protetoras de cursos de água em margens de rios, lagos e mananciais.
Outra modificação considerada “grave” pelos críticos é a dispensa de exigência de reserva legal para imóveis de até quatro módulos fiscais (até, aproximadamente, 150 hectares) em todo o país. “Isso pode significar, somente na floresta amazônica, a eliminação da reserva legal de até 70 milhões de hectares”, diz a carta. Com base na suposição de que metade dessas áreas já esteja desmatada, “ainda assim o projeto retira a proteção legal de pelo menos 35 milhões de hectares de florestas”, acrescenta a carta.
Segundo as organizações, se a iniciativa for adiante, será permitido liberar 12,8 bilhões de toneladas de CO² armazenados na selva amazônica. Uma emissão que corresponde a três vezes a meta brasileira de redução de emissões de gases contaminantes que causam o aquecimento global por causa do desmatamento. Essa pauta foi apresentada pelo Brasil em dezembro, em Copenhague, na 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15).
A mobilização contra a proposta começou antes da chegada das fortes chuvas que causaram transbordamento de rios, inundações e desabamentos esta semana nos Estados nordestinos de Alagoas e Pernambuco. Até ontem, o saldo parcial indicava 44 mortos, 600 desaparecidos e centenas de milhares de pessoas afetadas de diversas formas. Cruz afirmou que as modificações propostas “abrem brechas para o desmatamento do princípio ao fim”.
Tragédias como as do Nordeste “são um exemplo do que pode ocorrer com o aumento do desmatamento, e, no caso do Brasil, com as florestas tropicais como um todo”, destaca o ambientalista. Cruz também recordou que no país o desmatamento responde por 75% das emissões de gases-estufa, que provocam o aquecimento global. Com o que qualifica de “código de desmatamento” a tendência seria aumento “desses eventos climáticos extremos”, como chuvas torrenciais fora de época e em quantidade acima da média habitual, acrescentou.
Um cálculo do Greenpeace, que Cruz considera “conservador”, alerta que, no caso de serem aprovadas as mudanças, serão desmatados 85 milhões de hectares. A opinião é compartilhada por Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, superintendente de conservação do Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil). O especialista em ecologia chama a atenção para o agravamento de desastres naturais do tipo desmoronamento de terra e mais chuvas, como ocorreu em Santa Catarina em anos recentes. No caso de a iniciativa de reforma do Código Florestal prosperar, antecipa-se “eventos climáticos extremos com mais frequência e força”, disse.
Márcia Hirota, do SOS Mata Atlântica, destacou à IPS que precisamente as áreas mais afetadas de Pernambuco e de Alagoas ficam em área de Mata Atlântica, cujo bioma ocupa 1,3 milhão de quilômetros quadrados, equivalente a quase 15% do território brasileiro, englobando 17 Estados.
Dados da SOS Mata Atlântica e do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que originalmente esse ecossistema chegava a ocupar 18% do Estado de Pernambuco, enquanto hoje está em apenas 13%. Da mesma forma, 53% do Estado de Alagoas estava coberto por essa floresta tropical úmida, e agora está presente em 10%. Hirota, que acaba de regressar do Nordeste, disse que as populações mais afetadas pelas chuvas estão exatamente nas margens de rios totalmente desmatados, embora o Código Florestal em vigor estabeleça a distância de 30 metros de proteção.
Isso contribuiu para o transbordamento de rios e represas, com bairros inteiros desaparecendo sob as águas. Hirota descreveu cenas trágicas que presenciou. Muita gente desaparecida, famílias que perderam casa e tudo o mais, contou. Por isso, considera que a proposta de Aldo Rabelo “vai totalmente na contramão da realidade que vivemos e vai piorar ainda mais a situação”. Recorda outras catástrofes com as que atingiram este ano Rio de Janeiro e Niterói, onde as populações mais afetadas foram as que ocupavam irregularmente áreas de encostas e desmatadas.
“É importante estar alerta porque não podemos perder mais vidas”, disse Hirota, ao explicar que em situações como estas fica confirmado que a legislação ambiental não é “para proteger árvores e bichinhos, mas também para garantir a segurança e o direito à vida das pessoas”. A ativista considera que, nessas circunstâncias, não basta que o governo retire as pessoas das áreas de risco mas que as leve a “locais seguros onde possam viver com dignidade”. Por sua vez, Scaramuzza propõe que se invista em ações como reflorestamento das áreas dos rios.
Dados do Ministério do Meio Ambiente, citados pela advogada Paula Lavratti, do Instituto Direito por um Planeta Verde (IDPV), indicam que mais de um milhão de pessoas foram afetadas por algum tipo de desastre natural entre 2000 e 2007. Os ambientalistas atribuem a ofensiva contra o Código Florestal à “bancada ruralista”, grupo de deputados que defende os interesses dos latifundiários e empresários agropecuários na Câmara. Por isso, querem adiar até depois das eleições a votação. “O temor é que negociem a floresta por votos”, manifesta Cruz, ao alertar que “já tem gente esperando para ligar a motosserra se o novo código for aprovado”.
junho 25, 2010 2 Comments
Pesquisa Você e o Meio Ambiente
Em pesquisa realizada entre os dias 26 de novembro e 01 de dezembro, em 2009, através de convites por e-mail pelo site Problemas Ambientais obteve resultados interessantes sobre o comportamento e as opiniões do público alvo perante algumas questões ambientais.
O público alvo foram pessoas com nível superior, ou pós graduação, com formação relacionada com a área ambiental. A idade média foi de 20 a 30 anos, com divisão igual entre sexos.
Em sua maioria, os entrevistados demonstram grande preocupação com as mudanças climáticas, e procuram conscientizar as pessoas sobre a importância de cuidar do meio ambiente.
Apesar disso, analisando as atividades ambientalmente corretas adotadas pelos entrevistados, nota-se que as mais corriqueiras são aquelas que demandam pouco esforço, e quase nenhum gasto extra (na maioria das vezes, economizando), como demonstrado no gráfico abaixo:
Atitudes que envolvem grandes custos iniciais não são adotadas pela maioria, como usar aquecedor solar. Assim como atitudes que envolvem significativo aumento no orçamento, como comprar produtos de origem local. Hábitos de conveniência, como a facilidade do transporte por automotores, retirar carregadores da tomada quando não estão em uso, ou recusar sacolas plásticas, apresentam equilíbrio entre quem faz ou não. Talvez pela época de transição de hábitos mais impactantes para hábitos mais responsáveis ambientalmente.
Uma das ferramentas mais eficientes para incentivar os hábitos ecológicos é através das campanhas em diversas mídias, como jornais, revistas e etc. Alguns comportamentos, como recusar produtos embalados no isopor, não são atitudes incentivadas nestas campanhas, e, talvez por isso seja baixa a porcentagem de pessoas a adotar essa atitude.
A maioria dos entrevistados, cerca de 74%, aceitaria pagar mais por um produto ecologicamente sustentável, mas os comentários indicam que o valor pago a mais não poderia ser abusivo, menos de 10% do valor do produto.
Quanto a neutralização de carbono, a maioria aceitaria pagar para neutralizar suas emissões, mas um valor baixo, menos de R$ 100,00 por ano.
Conclusão
As pessoas estão preocupadas com as mudanças climáticas, e tem consciência dos impactos que causam ao meio ambiente. Por isso, aos poucos passam a adotar algumas atitudes pró-ativas com relação ao tema. Nota-se que as ações bombardeadas pela mídia são mais adotadas, e que apesar da preocupação e a da postura pró-ativa, o fator limitante é o custo, e o grande esforço demandado por algumas das atitudes. Por outro lado, atitudes que representem economia ou corte de custos, também são as primeiras a serem adotadas.
O público alvo da pesquisa tem em sua grande maioria formação na área ambiental, e por isso, espera-se que para a grande massa obtenham-se opiniões diferentes, e principalmente, que as atitudes ambientalmente sustentáveis sejam adotadas pela minoria apenas.
maio 14, 2010 3 Comments
Radiações perigosas
Tese mostra correlação entre casos de morte por câncer e localização das antenas de telefonia celular
Por Ana Rita Araújo
Adilza Dode só usa celular em casos excepcionais: radiações estão associadas a vários tipos de neoplasia
Para evitar exposição prolongada às radiações eletromagnéticas, a engenheira Adilza Condessa Dode usa celular apenas em casos de extrema necessidade. A precaução decorre de estudos que desenvolve há cerca de uma década, com o intuito de descobrir os efeitos físicos, químicos e biológicos da radiofrequência nos seres vivos. Em tese defendida na UFMG, no final de março, Adilza Dode confirma a hipótese de que há correlação entre os casos de óbito por neoplasia e a localização de antenas de telefonia celular, em Belo Horizonte.
Por meio de geoprocessamento, a pesquisadora constata que a região Centro-Sul da capital mineira possui a maior concentração de antenas e a maior taxa de incidência acumulada de mortes por câncer. A menor taxa está na região do Barreiro, que também abriga o menor número de antenas instaladas.
“A poluição causada pelas radiações eletromagnéticas é o maior problema ambiental do século 21”, afirma a engenheira, que, em sua tese, recomenda a adoção, pelo governo brasileiro, do chamado princípio da precaução, aprovado na Conferência Rio-92. Segundo tal premissa, enquanto não houver certeza científica da inexistência de riscos, o lançamento de novo produto ou tecnologia deve ser acompanhado de medidas capazes de prever e evitar possíveis danos à saúde e ao meio ambiente.
Componente da banca que avaliou a tese de Adilza Dode, o professor Álvaro Augusto Almeida de Salles, do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacou que a pesquisa confirma resultados de estudos realizados na Alemanha e em Israel. “Com esse trabalho, Belo Horizonte coloca-se em uma importante posição na área”, comentou.
A pesquisa
Preocupada com a quase inexistência de dados sobre os efeitos de uma tecnologia que rapidamente se popularizou, Adilza Condessa Dode defendeu, em 2003, dissertação de mestrado orientada pela professora Mônica Maria Diniz Leão, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG, em que provou a existência de sobreposição de radiação em áreas onde há antenas instaladas, o que causa contaminação eletromagnética.
Para o doutorado, trabalhou com a hipótese de relação entre mortes por câncer e a proximidade residencial com antenas – estações radiobase (ERB) – de telefonia celular. Adilza Dode realizou pesquisa em bancos de dados preexistentes, cruzando informações sobre óbitos, em Belo Horizonte, de 1996 a 2006, com informações populacionais fornecidas pelo IBGE.
Entre os 22.543 casos de morte por câncer, no período de 1996 a 2006, a pesquisadora selecionou 4.924, cujos tipos – próstata, mama, pulmão, rins, fígado, por exemplo – são reconhecidos na literatura científica como relacionados à radiação eletromagnética. Para processar essas informações, ela contou com a co-orientação da professora Waleska Teixeira Caiaffa, uma das coordenadoras do Observatório de Saúde Urbana de Belo Horizonte e do Grupo de Pesquisas em Epidemiologia da Faculdade de Medicina da UFMG.
Na fase seguinte do estudo, Adilza Dode elaborou uma metodologia inédita, utilizando o geoprocessamento da cidade, para descobrir a que distância das antenas moravam as 4.924 pessoas que morreram no período. “A até 500 metros de distância das antenas, encontrei 81,37% dos casos de óbitos por neoplasias”, conta a pesquisadora, professora do Centro Universitário Izabela Hendrix e da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.
Ela comenta que, nos últimos anos, houve crescimento de casos de câncer de encéfalo no país, como atestam dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), e aumento no uso da telefonia celular. “Não posso afirmar que esta é a causa dos óbitos; mas qual é o fator novo nesse período? O fator ambiental que veio a público é a telefonia celular, não há outro”, analisa. Segundo ela, a literatura científica sugere a quem tem câncer e faz quimioterapia que evite exposição a campos eletromagnéticos.
Níveis seguros?
Há níveis seguros de radiação para a saúde humana? “Esse é exatamente o problema: até agora, ninguém sabe quais os limites de uso inócuos à saúde”, explica Adilza Dode, ao destacar que os padrões permitidos no Brasil são os mesmos adotados pela Comissão Internacional de Proteção Contra Radiações Não Ionizantes (Icnirp), normatizados em legislação federal de maio de 2009. Para a pesquisadora, esses padrões são inadequados. “Eles foram redigidos com o olhar da tecnologia, da eficiência e da redução de custos, e não com base em estudos epidemiológicos”, assegura.
Segundo o professor Álvaro Augusto Almeida de Salles, da UFRGS, também não existem pesquisas epidemiológicas que demonstrem os efeitos das ondas emitidas por equipamentos de wireless, wi-fi e bluetooth, que irradiam em níveis mais baixos, mas contínuos. “Somos cobaias de tecnologias que ainda não se mostraram inócuas”, sentencia.
Adilza Dode informa que os campos eletromagnéticos interferem, também, em equipamentos biomédicos. “Por isso, é necessário desligar o celular ao entrar em hospitais, e não se deve, de forma alguma, instalar ERB em área hospitalar”, adverte, ao lembrar que mesmo as pessoas que não usam celular recebem radiação emitida, de forma contínua, pelas antenas.
Ela informa que países como Suíça, Itália, Rússia e China adotaram padrões bem mais baixos que os permitidos pela Icnirp. E no Brasil, o município de Porto Alegre editou lei que define níveis de emissões de radiações similares aos da Suíça.
Em sua tese, Adilza citou diversos estudos internacionais que procuram compreender os efeitos dos campos eletromagnéticos. Um deles, o projeto Reflex, financiado pela União Europeia, realizado em 2004 por 12 laboratórios especializados em sete países, afirma que a radiação eletromagnética emitida por telefones celulares pode afetar células humanas e causar danos ao DNA, ao alterar a função de certos genes, ativando-os ou desativando-os. Outro estudo, realizado em Naila (Alemanha), constatou a incidência três vezes maior de câncer em pessoas que viveram em um raio de até 400 metros das antenas de telefonia celular.
Em Netanya, em Israel, outro estudo mostrou o aumento de 4,15 vezes na incidência de câncer para os moradores que residiam dentro de um raio de até 350 metros das antenas de telefonia celular. Há, ainda, pesquisas que apontam riscos maiores para crianças, devido às especificidades de seu organismo. “A penetração das radiações eletromagnéticas no cérebro das crianças é muito maior que no dos adultos”, destaca Adilza Dode, que já se prepara para começar nova etapa de estudos. Seu objetivo agora é medir os níveis de exposição humana às radiações eletromagnéticas nas residências das pessoas diagnosticadas com câncer.
Recomendações
“Não somos contra a telefonia celular, mas queremos que o Brasil adote o princípio da precaução, até que novas descobertas científicas sejam reconhecidas como critério para estabelecer ou modificar padrões de exposição humana à radiação não ionizante”, diz a pesquisadora.
Em um capítulo de sua tese, ela lista uma série de recomendações. Entre elas, a de que o Brasil adote os limites já seguidos por países como a Suíça. Sugere, ainda, que o governo não permita transmissão de sinal de tecnologias sem fio para creches, escolas, casas de repouso, residências e hospitais; crie infraestrutura para medir e monitorar os campos eletromagnéticos provenientes das estações de telecomunicação e desestimule ou proíba o uso de celulares por crianças e pré-adolescentes.
Às indústrias, a tese recomenda a produção de telefones celulares com radiação no sentido oposto à cabeça do usuário, o investimento em pesquisa para descobrir limites seguros e a redução dos níveis de radiação emitidos pelas antenas. Aos usuários, Adilza sugere que não andem com celulares junto ao corpo; adotem a prática de envio de mensagens, evitando, ao máximo, sua proximidade ao ouvido; e afastem-se de outras pessoas ao recorrer ao aparelho. A autora aconselha, ainda, que cada prédio tenha área reservada para uso de celular, e que os moradores não aceitem a instalação de antenas. “Há uma crença segundo a qual o prédio onde se encontra uma antena de celular não recebe radiação. Isso foi desmentido por pesquisas recentes”, adverte a pesquisadora.
Tese: Mortalidade por neoplasias e telefonia celular em Belo Horizonte, Minas Gerais
Autora: Adilza Condessa Dode
Defesa: 26 de março de 2010,
junto ao Programa de Doutorado
em Saneamento, Meio Ambiente,
e Recursos Hídricos (Desa)
Orientadora: Mônica Maria Diniz Leão, professora do Departamento
de Engenharia Sanitária e Ambiental,
da Escola de Engenharia da UFMG
Co-orientadora: Waleska Teixeira Caiaffa, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade
de Medicina da UFMG
Leia mais no site
www.mreengenharia.com.br
Fonte: http://www.ufmg.br/boletim/bol1690/4.shtml
abril 26, 2010 3 Comments

