A escassez de água potável
Uma de nossas necessidades mais básicas, a água potável, já é escassa em muitos países, e até mesmo o Brasil, com suas grandes reservas pode ter problemas futuros.
| Está cada vez mais difícil achar água potável
Por Vinod Thomas e Ronald S. Parker* |
A tarefa de fornecer água de boa qualidade onde ela é necessária está se tornando cada vez mais difícil em todo o mundo. Nas últimas décadas, os países têm feito investimentos em infraestrutura para aliviar a escassez, mas até agora, na maioria dos casos, a resposta a essa questão deixou de considerar o problema suscitado pela deterioração que os recursos hídricos vêm sofrendo. Para enfrentar de forma efetiva o problema da crescente crise da água será preciso vincular o seu uso à atenção ao meio ambiente.
Em muitos lugares, mesmo onde a água ainda é abundante, a destruição ambiental tornou caro demais o seu uso. Em outros que desfrutam um bom suprimento de água, ela é usada de maneira imprópria. As prioridades podem ficar de tal modo viciadas que, embora as cidades continuem desesperadas à procura de água, agricultores estão irrigando árvores frutíferas ou plantações de algodão no deserto. Ainda menos aceitável é que a água potável esteja sendo usada para manter jardins e campos de golfe, enquanto os pobres urbanos são forçados a pagar caro por ela, a qual compram em baldes.
Por causa disso, cerca de 700 milhões de pessoas em mais de 40 países são afetadas pela escassez. A intromissão humana nos ambientes hídricos é também um problema crescente. Até 2030 a Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que 75% da população mundial estará vivendo em áreas costeiras, pondo em risco as terras úmidas que ajudam a limpar o ambiente aquático, além de expor centenas de milhões de pessoas aos riscos relacionados com a água associados às mudanças climáticas.
O Banco Mundial é o maior financiador oficial de investimentos em água nos países em desenvolvimento. Os compromissos de empréstimo na última década somaram por volta de US$ 55 bilhões, com a China e a Índia no topo da lista de mutuários, seguidas pelo Brasil e pela Indonésia. Os projetos hídricos, cobrindo da irrigação e da hidroenergia à gestão de mananciais e vias aquáticas interiores, mostraram nos últimos anos maior sucesso do que outros setores na realização de seus objetivos.
Perdura, no entanto, o desafio de atender às atuais necessidades de água e implantar, ao mesmo tempo, estratégias inovadoras para tomar em conta as futuras necessidades. As áreas de ênfase caem em cinco campos principais ao longo do eixo do desenvolvimento aquático e da gestão ambiental.
Primeiro, o grupo que mais sofre a escassez de água consiste de 45 países, dos quais 35 são da África, que tem pouca. É necessário que a sustentabilidade hídrica se torne central nos seus planos de desenvolvimento, com medidas dimensionadas para atender às suas necessidades urgentes. Mesmo países ricos em água, como o Brasil ou a Tailândia, podem vir a enfrentar deficiência, ao caírem os níveis em represas e de fontes naturais.
Segundo, os lençóis aquáticos subterrâneos estão cada vez mais ameaçados por exploração excessiva, fluxos ambientais inadequados e contaminação. O esgotamento mais grave de águas subterrâneas ocorre no Oriente Médio, no norte da África e no sul da Ásia. Os esforços necessários abrangem monitoramento da qualidade da água, melhoramento dos aterros sanitários e redução da infiltração de águas superficiais contaminadas nos lençóis freáticos.
Terceiro, a restauração de ambientes degradados pode ter grandes impactos. Um projeto de proteção de terras úmidas costeiras no Vietnã, por exemplo, ajudou a reduzir a área de erosão costeira em nada menos que 40%.
Quarto, as Nações Unidas estimam que 1,8 bilhão de pessoas ainda não terá acesso ao saneamento básico em 2015. Será preciso colocar mais ênfase não somente em soluções de baixo custo no saneamento básico, mas também em ligações domiciliares aos sistemas sanitários. Entre os países em desenvolvimento, registrou-se o maior progresso na Ásia oriental.
Quinto, os investimentos em abastecimento de água precisam ser combinados com a gestão da demanda. A agricultura é a maior usuária na maioria das situações, nas quais tecnologias que melhoram a eficiência não são suficientes para melhorar o uso da água. Uma recuperação de custos maior em projetos hídricos seria útil. Estabelecer cotas e forçar o seu uso no consumo de água, um enfoque relativamente recente, merece cuidadosa avaliação.
Mesmo quando são reconhecidas, tem sido difícil converter tais prioridades em ação. Quando os atores-chave se sentam à mesa para negociar a distribuição de água, o meio ambiente fica esquecido. Raramente existe apoio à recuperação de um aquífero em declínio se ainda se pode extrair água dele, à restauração de faixas úmidas protetoras ou à manutenção de um fluxo suficiente num rio, para que a fauna silvestre possa sobreviver e a intrusão salina, ser prevenida.
O apoio político à reforma é muitas vezes dificultado por graves lacunas na compreensão da situação hídrica de um país. Melhores dados, monitoramento sistemático e divulgação dos achados são essenciais para a mobilização de recursos e a ação. O compartilhamento de conhecimentos apoia, assim, os desembolsos financeiros e possibilita melhores resultados no terreno.
Uma maneira de abrir uma janela de oportunidade seria apoiar processos de monitoração que mandam informações relevantes aos interessados públicos e privados. O exemplo do Brasil mostra que, tornando dados de água disponíveis para o público na internet, isso ajuda a aumentar a preocupação dos interessados, o que também ajuda a mobilizar a vontade política necessária para confrontar problemas de águas arraigados.
*Respectivamente, diretor-geral e consultor no grupo independente de avaliação do banco mundial (Washington D.C.)
** Artigo pblicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo
(Envolverde/O autor)
julho 19, 2010 3 Comments
Dia Mundial da Água
Em comemoração ao Dia Mundial da Água publico um texto resumido com reflexões muito importantes sobre o assunto.
Dia Mundial da Água - Uma breve reflexão sobre este valioso bem natural
Por Edgard José Laborde Gomes e Martim Assueros Gomes*
Comemora-se todo dia 22 de março o Dia Mundial da Água, criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1992. Aproveitamos aqui essa importante iniciativa para refletirmos sobre o domínio, uso e preservação deste valioso bem natural.
Considerando que a água é um recurso natural essencial à vida e de uso comum do povo; que sua natureza é difusa enquanto bem indivisível, ou seja, que não pode ser repartido; que ao mesmo tempo em que pertence a todos ninguém em específico o possui; e que sua titularidade diz respeito a pessoas indeterminadas da coletividade e do domínio público, conclui-se que sua gestão é de responsabilidade do Poder Público.
Muitas vezes a ilusão da abundância tem mascarado a realidade, mas o fato é que a água de boa qualidade para consumo humano está cada vez mais escassa, o que é motivo de grande preocupação, pois a capacidade de recarga das reservas hídricas são complexas e demoradas (Tabela 1/1).
Nunca é demais lembrar que de toda a água existente na Terra menos de 3% correspondem a água doce. E quando consideramos apenas o volume disponível para consumo em rios e lagos, este índice não chega a 0,2%, visto que a maior parte da água doce concentra-se nas calotas polares e geleiras ou em subsolos profundos.
O Brasil é um país privilegiado em termos hidrográficos, pois abriga a bacia Amazônica e o aquífero Guarani – os maiores do mundo em suas modalidades hídricas, além dos rios São Francisco e Paraná, unidades hidrográficas de importância inestimável. A propósito, esses três rios formam uma das maiores redes fluviais perenes do planeta.
Essa disponibilidade hídrica brasileira, entretanto, tão favorável em termos quantitativos e que corresponde a 11,6% da água doce disponível no mundo, não significa equilíbrio qualitativo. Os nossos grandes rios ficam distantes dos centros urbanos, ou seja, das grandes concentrações populacionais, o que torna a distribuição da água bastante irregular. A maior parte da nossa água doce – cerca de 70% – encontra-se na Região Amazônica, a menos habitada, enquanto os cerca de 30% restantes distribuem-se desigualmente pelo país, para atender a 93% da população. Ao Sudeste, por exemplo, a região brasileira com maior concentração populacional, cabem apenas 6% do total da água; e ao Nordeste, somente 3%.
Além disto, a qualidade das águas é comprometida pela poluição ambiental e pelo desmatamento – inclusive de matas ciliares, o que submete os rios à erosão e assoreamento e põe em risco, até, nascentes e outras unidades hídricas. Em seu trajeto, os cursos de água recebem diferentes tipos de poluentes, com os seguintes destaques: nos grandes centros urbanos, esgotos domésticos e industriais são neles despejados, além de servirem de depósito e escoadouro de resíduos sólidos; em algumas regiões brasileiras, principalmente na região Amazônica e Pantanal, são contaminados por mercúrio, metal pesado utilizado em garimpos clandestinos; e contaminados por agrotóxico e adubos químicos ao percorrerem plantações agrícolas, em especial monoculturas de larga escala. Em alguns casos, principalmente quanto aos dois últimos, também há risco de contaminação ocupacional.
O desperdício acompanha igualmente os diversos usos e consumos da água, desde os sistemas ineficientes de irrigação na agricultura e a não aplicação, pelas indústrias, da reutilização em seus processos produtivos, até as nossas pequenas atividades domésticas, como tomar banho, escovar os dentes e lavar o carro, pela falta de orientação e informação.
Ressalte-se, ainda, que a explosão populacional tem grande influência no desequilíbrio quantitativo e qualitativo dos recursos hídricos, pois sobrecarrega as atividades industriais e agrícolas. Mundialmente, o maior consumo de água cabe à agricultura – 67%, seguido pelo uso industrial (23%) e residencial (10%).
A água é um bem renovável, porém finito, e possui significado socioeconômico. A degradação causada pelo uso ineficiente o torna limitado e escasso, o que se verifica em muitos lugares, mesmo em regiões onde antes havia suficiência hídrica.
A seguir, alguns indicadores de consumo e sugestão de ações e hábitos que podem contribuir para o uso racional da água:
Gasto de água por tipo de consumo residencial no Brasil:
46% do consumo – chuveiro;
14% do consumo – cozinha e vaso sanitário;
12% do consumo – lavatório;
8% do consumo – máquina de lavar roupa;
6% do consumo – torneira de uso geral.
Ações que contribuem para o uso racional da água:
1. Em casa
Chuveiro: Um banho de 15 minutos exige 105 litros de água. Reduza o tempo para 10 minutos e o consumo cai para 70 litros.
Cozinha: Lavar louça com a torneira aberta acarreta um gasto de 112 litros. Uma boa maneira de economizar água é encher a cuba da pia de água, limpar os resíduos de comida dos utensílios com esponja e sabão e depois enxaguar com água limpa.
Vaso sanitário: Sozinho, o vaso sanitário pode representar 50% do gasto de água de uma residência. Verifique periodicamente se o sistema de descarga está regulado e sem vazamento.
Lavatório: Enquanto ensaboa as mãos feche a torneira, pois cada vez que você lava as mãos com a torneira aberta o tempo todo, são gastos aproximadamente 7 litros de água.
Máquina ou tanque de lavar roupa: Procure racionalizar o uso, juntando uma boa quantidade de roupa suja em cada lavagem. Além do que, a água do último enxágue das roupas pode ser reutilizada para ensaboar tapetes, tênis e cobertores. Também serve para, lavar carro, pisos e calçadas.
Torneira de uso geral: Verifique se não há vazamentos. O simples gotejamento de uma torneira consome 60 litros por dia ou 2m³ por mês.
2. Na indústria:
Invista no uso sustentável da água no processo produtivo, com a instalação de sistemas de reutilização, resfriamento e alimentação de caldeiras, além do reaproveitamento em rega de jardins e lavagem de pátios.
Discuta a questão da água com sua família, seus vizinhos, sua comunidade. Procure formar grupos de discussões na Escola, nas Associação de Moradores, nos espaços recreativos. Leve a discussão à Rádio Comunitária, à Câmara de Vereadores, ao Ministério Público, às Promotorias de Justiça.
É possível atingir grandes mudanças a partir dessas simples atitudes, que ainda que pequenas, têm importância fundamental na preservação dos recursos hídricos.
A escassez e o comprometimento da qualidade dos recursos hídricos exigem que adotemos com urgência hábitos de consumo adequados, eficientes, saudáveis. Talvez “uso consciente”, “uso racional” ou “uso inteligente” sejam expressões mais apropriadas, enquanto adjetivos que expressam melhor uma atitude humana vinculada à sua própria preservação.
Contudo, a água não é um elemento isolado na teia da vida. Nela, tudo está interligado. Precisamos, portanto, adotar novos hábitos de consumo e atitudes de interação e harmonia com o meio ambiente como um todo, considerando seus processos inter-relacionais, interdependes e sistêmicos.
Ao Poder Público cabe instituir políticas que possibilitem o perceber dessa interligação de elementos e favoreçam a gestão ambiental. E neste sentido, a Educação Ambiental surge como importante instrumento.
*Edgard José Laborde Gomes – Consultor Ambiental e Assessor Diretoria ABIEPSPós – Graduado em Direito Ambiental
edgard@labordeambiental.com.br
*Martim Assueros Gomes – Sociólogo – Pós-Graduado em Educação Ambiental
assuerosmartim@yahoo.com.br
Fonte: Envolverde/O autor
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março 25, 2010 1 Comment
